8. ARTES E ESPETCULOS 5.9.12

1. CULTURA  PANCADAS COM CONTEDO
2. ARTE  O FEITIO DA FLOR CARNVORA
3. LIVROS  O FASCISTA HESITANTE
4. LIVROS  FOI TUDO DIFERENTE
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  EFEITO GUILHOTINA

1. CULTURA  PANCADAS COM CONTEDO
Assassins Creed  o melhor representante de uma tendncia salutar no mercado de videogames: jogos que, ao lado da ao, incorporam referncias histricas e culturais.
BRUNO MEIER

     Por meio de uma mquina que acessa a memria de seus antepassados atravs do DNA, Desmond Miles, um prosaico barman, revive as aventuras de Ezio Auditore da Firenze, membro de um cl de assassinos que atua  pelo bem da humanidade, bem entendido  na Itlia do sculo XV. Para vingar a morte do pai e dos irmos, Ezio vai escalar prdios de Florena e Veneza e fatiar inimigos com uma espada munida de uma insidiosa lmina oculta  criao do dubl de artista e inventor Leonardo da Vinci. Essa conjugao de fico cientfica e thriller histrico faz o enredo do segundo episdio de Assassins Creed, lanado em 2009. Ao todo, a srie de jogos j vendeu 38 milhes de cpias no mundo inteiro, 500.000 delas no Brasil  nmero muito expressivo, pois corresponde a um quinto dos 2,5 milhes de consoles para videogame que, estima-se, existem no pas (para fins de contraste, nos Estados Unidos so 100 milhes de aparelhos). Nos ltimos doze meses, a saga de Desmond e Ezio  que pode ser jogada com PlayStation 3 e Xbox 360  foi, ao lado de dois games de futebol, o jogo eletrnico mais vendido do Brasil. Assassins Creed  cuja primeira edio tinha lugar nas Cruzadas   tambm o melhor representante de uma tendncia corrente na indstria dos games: ao lado da ao e da definio grfica cada vez mais detalhista, desponta uma nova nfase na cultura. A arquitetura da Renascena  reconstituda com preciosismo, graas  ajuda de consultores de histria da arte. Mais surpreendente, o jogo traz referncias a fatos e personagens relativamente obscuros para quem no se dedicou ao estudo do Renascimento. Leonardo da Vinci, claro,  a mais manjada das figuras do perodo. Mas Maquiavel, o pai da moderna teoria poltica, est um tanto mais distante do repertrio do tpico f de videogames. O mesmo se pode dizer do atentado que os Mdici, a famlia de banqueiros e mecenas florentinos, sofreram em 1478  e que  parte importante do enredo do jogo (veja o quadro com personagens na pgina ao lado). Para agradar aos nerds mais dedicados, Assassins Creed traz uma minienciclopdia, com verbetes sobre o Renascimento e seus personagens. No basta mais destruir viles, realizar misses e passar de fase: os jogos agora precisam equilibrar a pancadaria com uma certa dose de contedo cultural.
     Entre os primeiros jogos culturais a fazer sucesso, est God of War, lanado em 2005 pela Sony. O jogador assume o papel de Kratos, um guerreiro espartano que tem de se bater com deuses como Zeus e Atena e monstros como o Minotauro para ganhar um assento no Monte Olimpo. As referncias mitolgicas, porm, eram usadas de modo mais frouxo do que os fatos histricos de Assassins Creed. Lanado em 2010 pelo estdio Visceral Games, Dantes Inferno , como anuncia o nome, baseado na Divina Comdia, de Dante Alighieri. Tal como no poema, Dante  guiado ao inferno pelo poeta latino Virglio. Os criadores do jogo tomaram algumas liberdades. No poema original, Beatriz, a amada de Dante, aparece cercada de luz no paraso. No jogo, ela fez um imprudente pacto com Lcifer  e cai no inferno. Cabe a Dante, convertido em violento heri de ao, salvar a alma da pobre moa. No meio do caminho, o poeta guerreiro encontra as almas condenadas do poeta Orfeu, personagem da mitologia grega, e do governador romano Pncio Pilatos.
     Criado nos estdios canadenses da empresa francesa Ubisoft (leia a entrevista com o produtor ao lado), terceira maior da indstria de games mundial. Assassins Creed  a verso mais refinada  em que pese a sangueira que jorra na tela  do game cultural. Conta at com uma extenso letrada: uma srie de livros com o enredo dos jogos, assinados por Oliver Bowden (nome de fantasia para um autor contratado). O Brasil, alis,  o pas em que os livros da marca mais vendem: os trs ttulos da srie lanados pela editora Record j tiveram 280.000 exemplares comercializados.
     Nesta semana, Assassins Creed  A Cruzada Secreta, o terceiro deles, est em 10 lugar na lista de fico em VEJA. Com uma narrativa de ao acelerada, os livros so talvez mais rasos do que o jogo  mas tm o mrito de pr a garotada para ler.
     O desenvolvimento de um jogo do gnero envolve um time variado de especialistas. Ao lado dos tradicionais ilustradores, designers e especialistas em programao, os estdios de games agora j contratam historiadores, arquitetos e at fsicos. Os profissionais envolvidos em Assassins Creed fizeram uma imerso na paisagem em que se passam as aventuras de Ezio: foram  Itlia para pesquisar lugares-chave, como o Coliseu, reconstitudo no jogo com a ajuda de arquelogos. As viagens so importantes para sentir o clima do lugar, diz Stphane Blais, gerente de contedo de Assassins Creed. Em sua terceira grande aventura, a ser lanada no Brasil em novembro, o jogo avana alguns sculos at a Revoluo Americana, em 1775. George Washington ser um dos personagens. Nos trailers, o heri-assassino aparece dando cabo de uma penca de soldados britnicos. Cultura  bom  mas no se pode descuidar da ao.

S DESLUMBRE VISUAL NO BASTA
Produtor executivo de Assassins Creed, o francs Sebastien Puel acompanha todas as etapas de criao da srie. De Montreal, onde vive e trabalha em um estdio da Ubisoft, ele falou a VEJA.

O pblico hoje d preferncia a jogos em que o contedo cultural tem relevncia? 
Sim. Durante muito tempo, os jogos foram considerados uma atividade ftil. Essa viso mudou. Hoje, eles so vistos com respeito porque tm uma narrao muito bem amarrada, por exigncia do contedo cada vez mais complexo.  esse contedo que cria um sentido e um propsito. Quando construmos um mundo, uma histria, personagens e uma misso, o fazemos no s para o jogador, mas tambm em benefcio das pessoas que esto ao lado dele na sala de estar. Ao desenvolver Assassins Creed, constantemente nos questionamos: o que os jogadores aprendem com o enredo? O deslumbre visual e os mecanismos inovadores so fundamentais, claro, mas no bastam. Acredito que os nossos consumidores aprendem tanto quanto ns mesmos aprendemos, ao desenvolver o jogo, sobre perodos histricos e figuras lendrias. Ficamos to imersos em um dado tempo e lugar, como a Itlia da Renascena, que queremos saber cada vez mais a seu respeito.

Essa preocupao com o aprendizado tambm serve para tranquilizar os pais dos jogadores, no? 
Se um pai sabe que um garoto pode aprender alguma coisa num jogo como Assassins Creed, ele vai se sentir muito mais  vontade e confortvel com o passatempo do filho. A toda hora, vejo exemplos de filhos que comearam a ensinar histria aos pais a partir do que aprenderam jogando.

Em que a visita ao cenrio real de uma histria contribui para o desenvolvimento do jogo? 
As viagens das nossas equipes contribuem para a autenticidade. O objetivo  obter o maior numero possvel de referncias, sobretudo arquitetnicas, e por isso fotografamos edifcios, interiores, exteriores, ruas. A luz tambm  muito importante  cada cidade tem uma luz particular. As vezes fotografamos s detalhes, como os tijolos e pedras de Istambul, na Turquia, que utilizamos para realar as texturas das imagens no computador. Nossa misso  manter a sensao que uma cidade ou regio transmitem, incluindo-se a os rudos, a msica local e at a lngua que as pessoas falam.

AJUDANTES DE LUXO
Alguns dos personagens histricos da Renascena que aparecem como coadjuvantes no jogo (e no livro) Assassins Creed

LEONARDO DA VINCI (1452-1519)
 o melhor amigo de Ezio, o protagonista. Retratado como um jovem animado e otimista, aparece na funo de inventor, construindo at uma mquina voadora.

NICOLAU MAQUIAVEL (1469-1527)
O autor de O Prncipe, clssico tratado poltico,  apresentado como membro dos Assassinos, organizao secreta que defende a liberdade da humanidade. Tem papel decisivo no ataque a Rodrigo Brgia, o papa Alexandre VI, grande vilo do jogo.

LORENZO DE MDICI (1449-1492)
Os Mdici, famosa famlia de banqueiros florentinos, sofreram de fato um atentado em 1478. No jogo, Ezio salva Lorenzo dos criminosos e ainda persegue Francesco de Pazzi, patriarca de uma famlia rival e mandante do ataque.


2. ARTE  O FEITIO DA FLOR CARNVORA
Adriana Varejo, tema de uma retrospectiva em So Paulo, tornou-se a mais cara artista do pas retratando vsceras e outras esquisitices. Alm de rica, ela dilacera coraes.
MARCELO MARTHE

     Em seu ateli, na Zona Sul carioca, a artista plstica Adriana Varejo traa uma marmita light: um peixinho branco grelhado acompanhado de pur de batata-baroa. Ela  questionada sobre a ironia de optar por um cardpio to delicado estando cercada de telas que retratam coisas indigestas como saunas infectas, plantas carnvoras, corpos esquartejados e paredes que parecem regurgitar tripas e msculos em carne viva. Entre uma mastigada e outra, Adriana faz uma pausa reflexiva e esclarece: Eu tambm como vsceras.  difcil ligar a artista de fala mansa e beleza conservada aos 47 anos  sua arte. Como se poder conferir numa retrospectiva que vai entrar em cartaz nesta tera-feira no Museu de Arte Moderna (MAM) de So Paulo e chegar ao Rio de Janeiro em 2013, o adjetivo visceral no  gratuito quando aplicado  obra de Adriana Varejo. S moscas-varejeiras veriam alguma graa natural, convenhamos, nos elementos que inspiram os 42 itens da mostra. Mas Adriana extrai da imagens de forte impacto dramtico e capazes at de provocar arrepios de prazer. Ainda que ela negue haver uma sdica dentro de si: No gosto de sangue, gosto da tinta vermelha. No fao apologia da violncia, diz.
     A alquimia hipnotiza o mercado de arte. Num leilo realizado no ano passado em Londres, a tela Parede com Incises  la Fontana II foi arrematada pelo equivalente a 1,8 milho de dlares. A mostra traz um trabalho da mesma srie de 2001, que era dedicada a parodiar a temtica do argentino Lucio Fontana (1899-1968): Adriana troca a superfcie de cor chapada original por azulejos e preenche as fendas verticais com volumes vermelhos que lembram carne moda. O feito a tornou a mais cara artista brasileira viva. Com seu estilo esquisito, Adriana abocanhou um ttulo que era da tambm carioca Beatriz Milhazes, autora de abstraes coloridas bem mais amenas para decorar uma sala de jantar. Para todos os efeitos, as duas artistas so melhores amigas. Nos bastidores, porm, consta que h uma rivalidade de sangue na busca pelas maiores cifras. Adriana minimiza o fator financeiro. Grana nunca foi um critrio importante para mim, diz. Dada a fora dos atravessadores nesse meio, o desapego  mesmo recomendvel. Ela no ganhou nem um centavo com o leilo: ao vender a obra a um colecionador europeu, no incio da dcada passada, embolsou mdicos 17.000 dlares. Mas agora, j consagrada, chega a faturar 150.000 dlares por um trabalho (produz de seis a dez por ano).
     Adriana recicla sob um prisma contemporneo referencias pinadas do fundo do ba da histria da arte. Tem fixao, sobretudo, pelo barroco. Eu me amarro num drama. Sou uma alma barroca, afirma. Da vem uma arma que manipula com eficincia: a anttese. No estilo que floresceu no sculo XVII, a justaposio de elementos dspares exprimia o conflito entre pureza espiritual e dilaceramento carnal. Adriana saca do mesmo recurso para dar vazo ao absurdo em telas como Azulejaria Verde em Carne Viva (2000) e Folds 2 (2003)  pertencentes, respectivamente,  Galeria Tate Modern, em Londres, e ao Museu Guggenheim de Nova York. Em ambas, vsceras de espuma de poliuretano irrompem de paredes azulejadas cuja geometria poderia aludir a um estado de pureza. No entanto, como a cabea barroca de Adriana  um turbilho em que cabe at o humor contemporneo da revista americana Mad, o sentido das obras  vago. Em suas telas sobre saunas e banhos, labirintos forrados de azulejos  de novo  transmitem uma falsa sensao de assepsia. Nas obras da srie Figura de Convite, uma canibal surge em meio  imitao de uma azulejaria avariada pelo tempo. A obsesso pela decrepitude diz algo sobre a obra da artista. Como observou o terico Walter Benjamin em um ensaio dos anos 20 sobre o drama barroco alemo, aquela vertente da arte tirava sua fora do amontoar enigmtico  e desconexo de cacos do passado. O que  comum s obras do perodo  acumular incessantemente fragmentos sem um objetivo preciso e, na expectativa de um milagre, tomar os esteretipos por uma potenciao da criatividade, escreveu ele.
     A pintora de cruezas exacerbadas garante: sempre foi uma moa normal. No me encaixo no clich da artista atormentada, diz. Filha de pai militar (da Aeronutica) e me nutricionista (da o gosto por vsceras?), ela foi rata de praia na juventude. Chegou a iniciar as faculdades de engenharia e desenho industrial antes de se atirar na arte, nos anos 80. A elucubrao foi o caminho para lapidar seu estilo. Adriana gosta de sair fotografando aougues e banheiros velhos como fonte de pesquisa. Tambm adora um papo-cabea, dos filmes do ingls Peter Greenaway ao ensasmo ps-estruturalista (e chato  bea) do francs Gilles Deleuze. No momento, deu um tempo nas vsceras para mergulhar nas estranhezas marinhas que marcaram o incio de sua carreira. Tambm retomou outra de suas fixaes: as plantas carnvoras.
     Nos relacionamentos, Adriana  uma criatura onvora. Em meados da dcada passada, ela abalou seu mundinho ao encerrar um casamento de seis anos para se unir a Bernardo Paz, empresrio mineiro que criou Inhotim, espcie de parque de diverses da arte contempornea sediado perto de Belo Horizonte. Adriana o conheceu durante a construo do pavilho devotado  sua obra no complexo. Teve com ele sua nica filha, Catarina, de 6 anos. Depois que os dois se separaram, em 2010, ela no demorou a se casar outra vez. Seu marido atual, Pedro Buarque de Hollanda,  scio da produtora Conspirao e ex da atriz Mariana Ximenes. O Bernardo, que era meu amor, virou um grande amigo. E o Pedro, que era um grande amigo, virou meu amor. A vida no  cheia de surpresas?, filosofa. Da paixo carnal  amizade rasgada, e vice-versa: numa imitao perfeita da arte, a vida de Adriana tambm tem suas emoes barrocas.


3. LIVROS  O FASCISTA HESITANTE
A biografia de Galeazzo Ciano, o genro de Mussolini que teve um nico momento de dignidade  e morreu por isso.

     Quando Galeazzo Ciano contou aos amigos que ficara noivo de Edda Mussolini, um deles foi efusivo nos cumprimentos: Voc ganhou uma aplice de seguro para toda a vida. Ser genro de Benito Mussolini, no entanto, acabou sendo a desgraa do conde de Ciano. Ministro do Exterior no governo do sogro, ele participou do Grande Conselho Fascista que deps Mussolini, em 1933. Quando o ditador foi reempossado pelos nazistas, em um governo-fantoche, Ciano viu-se acusado de traio. A despeito dos apelos de Edda, foi executado de forma vil  amarrado a uma cadeira, de costas para o peloto de fuzilamento , em 1944. Tinha apenas 40 anos.  essa vida fulgurante e melanclica que o jornalista Ray Moseley narra em O Conde de Ciano  Sombra de Mussolini (traduo de Gleuber Vieira; Globo: 378 pginas; 49,90 reais).
     Filho de um heri naval da I Guerra, Ciano no foi um fascista de primeira hora, mas nutria uma admirao quase patolgica pelo Duce. Ele, alis, fazia um esforo ridculo para imitar os gestos e a postura do sogro  o peito estufado, o queixo erguido. Volvel no posto de ministro do Exterior, Ciano foi a princpio um ingnuo entusiasta da aliana entre a Itlia fascista e a Alemanha nazista (embora tivesse grande antipatia por Ribbentrop, o ministro do Exterior alemo), mas tentou afastar seu pas da esfera germnica quando Hitler estava para invadir a Polnia, em 1939. Era tarde demais: sem efetivo militar, a Itlia foi arrastada para a II Guerra Mundial. Ciano, cujas posies no primavam pela coerncia, piorou a situao do pas ao lan-lo em uma malograda invaso da Grcia (s consumada com uma ajudinha dos alemes). Tornou-se, por isso, uma figura impopular entre os italianos  e contribuiu para tanto o estilo de vida extravagante em tempos de racionamento. Ciano gostava de festas e de mulheres. Edda no ficava atrs: teve vrios amantes, entre eles Emilio Pucci, que faria carreira como estilista no ps-guerra.
     Moseley deixa transparecer uma nota discreta de simpatia por seu personagem charmoso e bon-vivant. Mas no perde de vista o fato de Ciano ter servido, ainda que sem convico, a um regime hediondo. Ciano teve afinal um momento de dignidade, ao confrontar o poderoso sogro. E esse momento lhe custou a vida. 
JERNIMO TEIXEIRA


4. LIVROS  FOI TUDO DIFERENTE
Membro da unidade que matou Bin Laden conta como foi a operao e desmonta a verso da Casa Branca de que o terrorista reagiu e acabou morto com dois tiros.
ANDR PETRY

     At que demorou muito. J faz um ano e quatro meses que o terrorista Osama bin Laden foi morto por uma unidade de elite da Marinha americana em Abbottabad, no Paquisto, e s agora sai, em forma de livro, um relato feito em primeira pessoa por um dos integrantes do comando militar que executou a operao. No H Dia Fcil, assinado por Mark Owen, um pseudnimo, j lidera a lista dos ttulos mais encomendados da Amazon e da Barnes & Noble, a maior rede de livrarias dos Estados Unidos. O motivo do sucesso antecipado  simples: Owen oferece um relato inteiramente distinto da verso oficial, e bem- comportada, para a morte de Osama bin Laden. No relato divulgado pela Casa Branca na poca, os militares se aproximavam do quarto do terrorista e foram recebidos a bala. Deu-se um tiroteio e Bin Laden acabou morto com dois tiros: um no peito e outro acima do olho esquerdo.
     Owen diz que nada disso  verdade. O comando que chegou ao quarto de Bin Laden estava subindo pela escada de acesso em silncio e no escuro. A menos de cinco degraus do topo da escada, o militar que ia na frente, o batedor, viu um vulto na porta do quarto e disparou. Ouvi tiros disparados com silenciador. Bop. Bop, escreve Owen, que vinha logo atrs do batedor. Ele relata em seguida que, ao entrar no quarto, deparou com o terrorista agonizando no cho (veja trecho na pg. ao lado). Bin Laden no ofereceu nenhuma resistncia. No quarto, os militares acharam uma AK 47 e uma pistola no coldre, e ambas estavam sem munio. Owen, que encontrou as duas armas, escreveu: Ele nem sequer esboara uma defesa. No tinha inteno de lutar.
     O rosto de Bin Laden estava coberto de sangue, o crnio afundado por um ferimento na testa e o peito rasgado por vrios tiros. Um colega tirou do estojo uma mangueira para esguichar gua no rosto, Owen limpou o sangue com o cobertor da cama. Peguei a cmera e as luvas de borracha, e comecei a tirar fotos, conta. As primeiras foram de corpo inteiro. Depois, ajoelhei-me perto da cabea e tirei algumas s do rosto. Afastando a barba para a direita e depois para a esquerda, tirei vrias fotos de perfil. Enquanto isso, outro militar recolhia amostras para exames de DNA  sangue e saliva. Feito o servio, pegaram o cadver pelos braos e pernas e o arrastaram pela escada, deixando um rastro de sangue. No trreo, o corpo foi colocado dentro de um saco morturio. No avio que levou os militares de volta  base, um dos integrantes da Marinha viajou sentado sobre o peito do morto.
     Os 24 integrantes da unidade de elite da Marinha americana estavam claramente instrudos para capturar Bin Laden, e no para execut-lo. Escreve Owen sobre a fase dos preparativos: Algum perguntou se a misso era de captura ou de morte. Um advogado do Departamento de Defesa ou da Casa Branca salientou que no era para ser assassinato. Se no houvesse resistncia, Bin Laden deveria ser apenas detido. Mas  quase inacreditvel que o terrorista no tenha esboado nenhuma reao. Os militares chegaram  sua casa em dois helicpteros. Um deles caiu na chegada, sem causar vtimas. Antes que o comando militar chegasse ao quarto de Bin Laden no 3 andar, passaram-se uns quinze minutos. Nesse tempo, houve tiroteios, um dos quais matou Khalid, o filho do terrorista que morava no 2 andar, e pelo menos trs exploses com as quais os militares derrubaram portes de metal para ir abrindo caminho. Com toda a ao e todo o barulho, Bin Laden, segundo o relato de Owen, no fez nada.
     A Casa Branca, pesando o clima poltico, ainda no se manifestou. O Pentgono disse que Owen poder ser punido por divulgar informao sigilosa. O autor usou pseudnimo e trocou o nome dos seus companheiros de farda por questes de segurana. Em certas passagens do livro, ele tambm revela a averso dos membros da unidade de elite  publicidade. Ironicamente, ningum fez mais do que Mark Owen para coloc-los todos sob os holofotes. Mesmo sua identidade vazou 24 horas depois que se noticiou a existncia do livro. Mark Owen  Matt Bissonnette, 36 anos. Alm de subitamente famoso, Bissonnette j  autor de um best-seller. A editora americana antecipou o lanamento do livro para esta tera-feira e aumentou a tiragem de 300.000 para 575.000 exemplares. No Brasil, a editora Paralela lana a verso eletrnica na tera e, dois dias depois, a verso impressa. Quem diria: a guerra ao terror acabou numa guerra de verses.

OS LTIMOS MOMENTOS
Na verso de No H Dia Fcil, o primeiro militar americano da fila que subia as escadas para o 3 andar  chamado de batedor  disparou um tiro no vulto  porta do quarto. Era Osama bin Laden, que no reagiu nem fez meno de pegar uma arma.

Mark Owen descreveu a cena que encontrou ao entrar no quarto:
Vimos imediatamente o homem deitado no cho ao p da cama. Trajava camiseta sem mangas, calas largas marrons e tnica marrom. Os tiros do batedor tinham penetrado no lado direito de sua cabea. Sangue e massa cinzenta escorriam do crnio.  beira da morte, ele se contorcia, em convulso. Eu e o outro invasor apontamos nossos lasers para seu peito e fizemos vrios disparos. As balas rasgaram-lhe a carne, sacudindo seu corpo contra o assoalho at parar de mexer.


5. VEJA RECOMENDA

CINEMA
O LEGADO BOURNE (THE BOURNE LEGACY, ESTADOS UNIDOS, 2012. EM CARTAZ A PARTIR DE SEXTA-FEIRA)
 O vigor com que Matt Damon deu vida ao protagonista da trilogia Bourne, que o ator estrelou de 2002 a 2007, foi to impactame que obrigou antigos agentes secretos do cinema a reconfigurar o visual e a atitude  foi o caso de James Bond, que passou a ser interpretado por um tipo mais msculo (Daniel Craig). O personagem de Damon no est presente no quarto filme da franquia, O Legado Bourne. Mas seu espectro assombra os viles do seriado, que tentam apagar sua origem. O substituto de Jason Bourne  um agente chamado Aaron Cross, interpretado com uma dose extra de garra por Jeremy Renner. Cross  membro de uma operao secreta da CIA e, na companhia da cientista Martha Shearing (Rachel Weisz), tem de lutar pela sobrevivncia quando a agncia decide extinguir a operao (vale dizer, exterminar quem trabalhava nela). Dirigido por Tony Gilroy, roteirista dos dois filmes anteriores da srie, O Legado Bourne padece de um roteiro nem sempre claro, e arrastado nas primeiras cenas. Mas, quando a ao toma conta da tela, rende momentos de tirar o flego  o melhor deles  uma perseguio de motos pelas ruas de Manila, capital das Filipinas.

LIVRO
FORA DO TEMPO, DE DAVID GROSSMAN (TRADUO DE PAULO GEIGER; COMPANHIA DAS LEIRAS; 176 PGINAS; 34,50 REAIS)
 Na Guerra do Lbano de 2006, Uri, filho de David Grossman, morreu quando seu tanque foi atingido por um mssil. Grossman, um dos mais importantes escritores de Israel, estava ento concluindo o romance A Mulher Foge, que acabou refletindo o pasmo pela perda do filho. Fora do Tempo volta a investigar essa dor ao mesmo tempo individual e histrica. Mas no  propriamente um romance: estruturado em dilogos, alguns deles versificados, o livro tem ares de um auto medieval. O protagonista  um homem que, depois de cinco anos sem dizer uma palavra, de repente rompe o silncio para anunciar  mulher que vai para l  sem determinar onde fica esse l. Sua caminhada at esse lugar inatingvel  como um lento processo de luto, acompanhado por personagens estranhos (o Centauro, o Duque, a Parteira). As referncias  realidade imediata de Israel so rarefeitas e as falas s vezes lembram os dilogos mais secos e duros de um Beckett. Mas este ,  parte toda a estranheza (ou por causa dela), um livro pungente.

DVD
CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO (FOREIGN CORRESPONDENT, ESTADOS UNIDOS, 1940. CLASSICLINE)
 Segundo filme da fase americana de Alfred Hitchcock  depois do sucesso de Rebeca, a Mulher inesquecvel , este  tambm um desfile de tipos e temas que o diretor ingls iria explorar  perfeio pelo resto de sua carreira. Joel McCrea  o homem errado no lugar errado: um reprter policial nova-iorquino enviado  Europa para cobrir o que seu editor sensacionalista chamava de o maior crime do momento. Laraine Day  a beldade inocente que o atrai para um ninho de cobras. Herbert Marshall  o pai dela, uni duvidoso pacifista amigo de gente mal-encarada que fala com sotaque alemo. Quando o jornalista descobre uma terrvel intriga internacional, ningum acredita nele, mas os viles saem  sua caa. O clmax, no interior de um avio sobre o Atlntico, ainda funciona, apesar dos efeitos especiais precrios da poca. O final banhado em exaltao patritica no  culpa de Hitchcock. Foi orquestrado pelo produtor Walter Wanger, um entusiasta da entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial  mais de um ano antes do ataque japons a Pearl Harbor.

DISCOS
ARRANJADORES, VRIOS INTRPRETES (NCLEO CONTEMPORNEO)
 Arranjadores foi uma srie de concertos realizada em So Paulo em 1992. O projeto apresentou a histria da msica popular brasileira pelo ponto de vista de seus principais arranjadores. A execuo das obras ficou a cargo da Orquestra Experimental de Repertrio. Finalmente lanados em uma caixa com trs CDs, esses concertos so soberbos, a comear pela seleo de repertrio, que traz obras de autores pouco executados, como Leo Peracchi (1911-1993) e Lyrio Panicalli (1906-1984). A faceta erudita de msicos conhecidos pelo trabalho popular  resgatada: o maestro Rogrio Duprat (1932-2006), famoso por sua colaborao com o tropicalismo, comparece com duas obras. Radams Gnatalli (1906-1988) tem seu concerto para Quarteto de Cordas e Orquestra brilhantemente executado pelo Quarteto de Cordas da Cidade.  igualmente bela a derradeira gravao do maestro Guerra-Peixe (1914-1993), que rege uma verso orquestrada dos Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Uma curiosidade: na orquestra do projeto, o hoje maestro Roberto Minczuk atuava como trompista.

WERE ONLY IN IT FOR THE MONEY E
HOT RATS, FRANK ZAPPA (UNIVERSAL)
Como bom democrata, o guitarrista americano Frank Zappa (1940-1993) acreditava que todos tinham direitos iguais   stira e ao achincalhe. Seu deboche destroava pessoas de todos os sexos, etnias, ideologias e crenas, e vinha embalado em uma msica original, que conjugava psicodelia, jazz, rock, pop e at elementos da msica erudita experimental do francs Edgard Varse (1883-1965). As novas edies de Were Only in It for the Money (1968) e Hot Rats (1969) so parte de um projeto de Gail, viva de Zappa, que vai relanar toda a obra do compositor (no Brasil, infelizmente, s esses dois discos devem chegar s lojas). O primeiro ironiza a gerao hippie e traz uma participao bizarra de Eric Clapton, sem guitarra  ele se limita a gritar no meio de uma faixa. Hot Rats prenuncia o jazz rock que apareceria depois em discos como Bitches Brew, de Miles Davis. Quase todo instrumental, traz alguns dos melhores temas de Zappa, como Peaches in Regalia e Gumbo Variatons.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA
2. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
3. Jogos Vorazes  Suzanne Collins. ROCCO 
4. Em Chamas  Suzanne Collins. ROCCO
5. A Esperana  Suzanne Collins. ROCCO
6. Herana  Christopher Paolini. ROCCO 
7. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
8. A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 
9. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
10.  Assassins Creed  A Cruzada Secreta  Oliver Bowden. GALERA RECORD 

NO FICO
1. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD
2. Nunca Fui Santo  Marcos Reis e Mauro Beting. UNIVERSO DOS LIVROS 
3. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL 
4. One Direction  Danny White. BEST SELLER 
5. As Melhores Receitas do Que Marravilha!  Claude Troisgros. GLOBO
6. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
7. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO 
8. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
9. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 
10. A Dieta Gracie  O Segredo dos Campees. Rorion Gracie. BENVIR

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
2. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE
3. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
4. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
5. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
6. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
7. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD 
8. A Menina do Vale  Bel Pesce. CASA DA PALAVRA
9. Os Segredos da Mente Milionria  T. Harv Eker. SEXTANTE 
10. Problemas? Oba!  Roberto Shinyashiki. GENTE


7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  EFEITO GUILHOTINA
     O voto do ministro Cezar Peluso no processo do mensalo, na quarta-feira passada, transmitido pela televiso e retomado no noticirio da TV e da imprensa, foi a evidncia mais publicamente escancarada da irracionalidade do dispositivo constitucional que obriga os membros do Judicirio, assim como os servidores pblicos em geral, a se aposentar aos 70 anos. O voto de Peluso foi equilibrado, preciso e inteligente. A linguagem foi clara, o raciocnio lgico. O ministro no teve lapsos de memria nem perdeu o fio da meada. No entanto, foi sua ltima participao num julgamento do Supremo Tribunal Federal. Nesta segunda-feira, 3 de setembro, completa 70 anos, e a Constituio presume que, gastos e carcomidos, os funcionrios com essa idade devem sair de cena. Esbanjam-se talento, cultura e bons servios como se o pas estivesse abarrotado deles.
     Outro fator vem duplicar a irracionalidade  o efeito guilhotina da aposentadoria compulsria. O aniversrio de Peluso foi o mais alardeado do Brasil nas ltimas semanas. Nem o dos heris pop, como Gilberto Gil e Milton Nascimento, que tambm esto fazendo 70 anos, mereceu igual insistncia. A razo  o efeito fulminante e inapelvel da aposentadoria. A Gil e Milton  permitido continuar cantando e compondo quanto puderem e desejarem. O juiz, esteja envolvido na tarefa que estiver, soado o inflexvel gongo,  obrigado a retirar-se. O bom-senso recomendaria que, uma vez comeado um trabalho, lhe fosse permitido terminar, mesmo que pelo meio incidisse a fatdica data. A lei brasileira vai no sentido contrrio ao bom-senso. O ministro Peluso julgou apenas um dos sete itens em que se constitui o caudaloso processo. Os outros seis sero julgados pelos restantes dez ministros, com o risco de haver empate em algumas das muitas imputaes que lhes cabe examinar.
     O ministro Celso de Mello lembrou, durante a sesso da quarta-feira, que a Constituio de 1891, a primeira da Repblica, no estabelecia limite de idade para a permanncia no Supremo Tribunal Federal. O limite foi estabelecido em 75 anos pela Constituio de 1934, recuou para 68 na de 1937 e fixou-se em 70 a partir da de 1946. Na Suprema Corte dos Estados Unidos no h limite. Em 2010, o juiz John Paul Stevens aposentou-se, por sua prpria deciso, aos 90 anos. Foi o segundo, na histria do tribunal, a chegar ativo a essa idade. Na atual composio da corte americana, quatro juzes tm mais de 70 anos. A mais velha, Ruth Bader Ginsburg, completar 80 no prximo ano. A Constituio americana estabelece que o juiz permanecer no cargo enquanto tiver bom comportamento (good behavior). Fora a voluntria deciso, s o impeachment pode afast-lo.
     Dorme no Congresso h quase dez anos um projeto de emenda constitucional do senador Pedro Simon que aumentaria a idade de aposentadoria dos funcionrios pblicos para 75 anos. Seu sono  embalado pela presso das corporaes. J estava claro, quando da Constituinte de 1987-88, que a expectativa de vida no pas crescia e que carreiras dependentes de aprimorada formao e alta capacidade intelectual praticam o malbarato de talentos ao expuls-los cedo de seus quadros. Venceu o lobby das corporaes. O clculo delas  que, quanto mais cedo forem afastados os mais velhos, mais cedo os que vm em seguida ocuparo seus postos. Nas carreiras mais prestigiosas, como a dos magistrados, diplomatas e professores universitrios, domina o empurro dos que vm de trs, para afastar os da frente. Arca com os custos o Errio, que acumula os gastos com mais aposentados do que seria desejvel com os de seus substitutos nos cargos.
     Nos ltimos anos tem sido grande o entra e sai no Supremo Tribunal Federal. Entre seus atuais integrantes, oito foram nomeados na era Lula-Dilma, e s trs em mandatos presidenciais anteriores. A aposentadoria compulsria  a principal responsvel pela alta rotatividade. A ela vieram juntar-se, em anos recentes, as aposentadorias voluntrias, antes do prazo legal, e sem fora maior, como as dos ministros Nelson Jobim e Ellen Gracie. O Supremo Tribunal oferece a seu integrante o pice de uma carreira, uma honraria como poucas e um bilhete de entrada na histria do pas. Utiliz-lo como trampolim para outras ambies, como s vezes parece ser o caso,  fazer pouco dele. Por mais de uma razo, as sadas tm sido para l de controvertidas, na Casa. E o pior  que as entradas tm sido mais controvertidas ainda.

